segunda-feira, 10 de junho de 2019

Cotidiano - Pesos inúteis

Olá,

 “Se perscrutásseis melhor todas as dores que vos atingem, nelas encontraríeis sempre a razão divina, razão regeneradora, e vossos miseráveis interesses seriam uma consideração secundário que relegaríeis ao último plano...” O E.S.E.Cap. 5, item 21. 

Quanto mais a ciência biológica estuda as estruturas íntimas dos seres vivos, mais claramente constata que os fenômenos nascimento e morte são etapas de um processo natural da vida. Mesmo assim, nos agarramos à idéia de que somos separados da  Natureza e encaramos a morte como o fim de tudo, numa visão isolada, desumana e insuportável de conceber.

Não nos auxilia em nada considerar a morte um adversário; porque mesmo assim, ela continuará fazendo parte de nossa existência. E ao tentar negá-la, estaremos nos distanciando ainda mais da realidade integral.
Todavia, ao provar o sentimento de perda, passamos por uma das maiores experiências como seres humanos: somos impulsionados a uma intensa reflexão, conseguindo, a partir daí, observar melhor as verdades transcendentais da Vida.
Nada se perde no Universo do “Todo-Poderoso”, tudo se transforma de modo maravilhoso, e com o passar do tempo aprendemos a entender e a aceitar a morte, numa visão harmônica e translúcida. Em verdade, a morte física não nos tira a vida, mas simplesmente faz com que passemos a transitar por novos caminhos.
E como não temos a posse sobre os outros, ou melhor, as pessoas não nos pertencem, a Vida Maior constantemente nos coloca à disposição situações e lugares novos, nos mais diversos planos existenciais, para que possamos nos enriquecer com as múltiplas experiências.
Somos nômades do Universo, viajantes das vidas sucessivas, na busca do aperfeiçoamento.
Há inconformados que sofrem por longo tempo a perda de pessoas amadas que passaram para outros níveis espirituais. E realmente aflitiva a saudade mesclada na dor, que abala a alma daquele que vê partir seus entes queridos.
 Ainda que a dor seja intensa, o homem deve ser honesto consigo mesmo, buscando continuadamente uma percepção mais precisa dos processos pessoais de “não-aceitação” em face da morte e uma conscientização do porquê dos “sentimentos de rejeição” que o mantêm preso a um constante círculo de pensamentos inconformistas.
 Certos indivíduos sentem profunda culpa se não chorarem e não se lastimarem indefinidamente, porque acreditam que as pessoas poderão julgá-lo como desumano e desprovido da capacidade de amar os familiares que partiram. Outros, por terem atitudes conservadoras e limitantes a respeito da afetividade, cultuam falecidos entes queridos para sempre, como se não existisse mais ninguém para amar.
Exageram uma época de grande felicidade, não acreditam que possam ter ainda reencontros alegres e vivem amarrados no passado propositadamente.  Por medo da solidão, certas criaturas lamentam de forma ininterrupta a privação de seus parentes, num fenômeno quase que inconsciente, para chamar a atenção de outros familiares, a fim de que estes supram suas carências afetivas e suas necessidades básicas de consideração.
Diversas pessoas que já atravessam leves crises de melancolia, ficam sujeitas a períodos angustiantes ainda mais longos e agravados, quando perdem seus afetos. Sem se dar conta de que, se examinassem com mais cuidado as matrizes dos seus estados depressivos, melhorariam sensivelmente; e que, por projetarem a causa de sua aflição apenas sobre a perda, sofrem muito sem a mínima condição de vislumbrar a cura definitiva.
Existem almas que passam vidas inteiras ao redor de outras almas, cuidando delas. Por não ter vida própria, estão sujeitas a um grau de dependência e apego enorme. Cultivam a dor como pretexto para sentir-se mais vivas e mais estimuladas, porque tudo que lhes restou foi agarrar-se às lembranças dolorosas na crença de que não podem mais parar de sofrer pela separação dos seres amados.
 Nossos sentimentos resultam dos processos de nossas percepções, emoções e sensações acumuladas ao longo das vidas pretéritas e da vida atual, e é através deles que temos toda uma forma peculiar de sentir e agir. Não obstante, analisando nossos sentimentos de perda e interpretando os reais fundamentos de nossas dores, poderemos nos conscientizar se estamos agravando ou não “nosso sentir”.
As dores da separação de filhos, cônjuges, irmãos e amigos podem ser agravadas, se a elas juntarmos o sentimento de culpa, remorso, dependência, conservadorismo, medo e não-aceitação.
 Lembremo-nos, porém, das palavras de Paulo: “E, quando este (corpo) mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória. Onde está, ó morte, o teu aguilhão?”    1 Coríntios 15:54
 Façamos, dessa forma, uma transubstanciação de nossos padecimentos e pesares, apartando todos os “pesos inúteis”, descartando-os e substituindo-os pelas “doces brisas” dos ensinos da Vida Eterna. Agindo assim, veremos abrandar em pouco tempo nosso coração turvado e pesaroso, que depois se tornará verdadeiramente aliviado e translúcido.

Hammed/Francisco do E.S. Neto                  " Reovando Atitudes"

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